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SOBRE

A idéia de criar um espaço onde eu pudesse opinar sobre vinhos surgiu perto da degustação documentada do meu quadrigentésimo septuagésimo rótulo, ou seja, o vinho de número 470 que eu documentei. Para que complicar? Essa é a idéia, botar o vinho “nas mãos”, ou melhor, “na boca” do consumidor, sem muitas delongas.Vinho é alimento, tem sido assim nos últimos 5 mil anos de história das nossas nações matrizes do Velho Mundo: Do Egito à Grécia, de Roma às suas colônias, até ter sido trazido pelos nossos lusos descobridores, o vinho tem feito parte da missa, dos casamentos, dos aniversários, das inaugurações, enfim, o vinho sempre esteve presente em algum momento da vida de alguém: Na bíblia, fala-se muito sobre ele; Na Santa Ceia, passa a ser o “sangue de Cristo”, dividido entre aqueles apóstolos pobres que sem cerimônia beberam o que confiavam ser de fato sagrado… À essa altura, era uma bebida extremamente rústica, armazenada em ânforas de argila ou barro, muitas vezes misturada à água na hora do consumo, e até mesmo com  especiarias: nos tempos de Roma, a água era praticamente podre, não conheciam-se as bactérias, de modo que o vinho figurava entre as bebidas mais saudáveis que tinha, junto com a cerveja.

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Seu caráter popular prevalesceu assim até ser sofisticado pela demanda mercadológica, mas o que está por detrás das prateleiras ou das adegas continua sendo o trabalho de um exército de homens simples, de pés no chão, de mãos brutas, que trabalham a terra através da enchada para produzir a colheita, muitas vezes feita à mão, para – aí sim – chegar ao poder dos enólogos que decidirão o que será enfim engarrafado e vendido.

img-03O enólogo é – com todo o respeito à essa nobilíssima profissão – conseqüência do mercado, não do vinho: Ele trabalha em nome do vinho para o mercado. Seu papel é defender o produtor, garantir a lucrabilidade aliada ao aumento da qualidade da bebida, implementando-lhe arte, mas ainda assim, conseqüência do mercado. O vinho é bruto, como uma pedra pretensamente preciosa, a ser lapidada e consagrada em seu valor de mercado. Assim como a pedra lapidada vai à uma festa abrilhantando um colar no pescoço de uma dama, ou a um jantar elegante, o vinho desse jantar terá sido lapidado pelo enólogo, mas, ainda assim, vem da uva, resultado do trabalho árduo dos camponeses que vêm, há séculos,  repetindo o ofício de seus antepassados.

mg05Portanto, o vinho é nosso tanto quanto a cerveja. Não devemos pensá-lo como uma “bebida do andar de cima” somente, mas como uma bebida que é o resultado do esforço de muita gente que trabalha nos bastidores, de “sol a sol”, às vezes de “neve em neve”, de “análise em análise”, de “prova em prova”, em todos os papéis importantes que embasam a produção desse “sangue” da Terra que alegra os nossos momentos…

É nisso que eu vou pensar sempre, em cada depoimento que eu publicar, em cada crônica, em cada informação nova que eu puder passar e contribuir aqui: que o vinho é tão meu quanto seu, e que o vinho melhor, é aquele que nos deixa melhores, que cabe no nosso bolso e que nos traz a emoção conveniente que cada momento exige, de risos ou lágrimas, de reflexão ou estímulo, mas sempre humano, sempre nosso.

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