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– A história do Moscatel de Setubal –

– A história do Moscatel de Setubal –

Não é possível afirmar que as vinhas Moscatel de Alexandria que há na Península de Setúbal sejam as mesmas trazidas pelos fenícios diretamente de Alexandria no século VIII a. C.

Sabemos que os romanos apreciavam o vinho da Lusitânia, então a província mais ocidental do Império Romano, mas que os muçulmanos costumavam arrancar as espécies Vitis vinífera dos domínios que conquistavam, deixando apenas o rastro das cepas de mesa, o que foi um grande revés para o vinho em Portugal e Espanha na era muçulmana. Em estados como Israel e Egito, por exemplo, que, apesar das escavações no sentido de descobrir quais eram as cepas vinificáveis antes da ocupação muçulmana, não é fácil concluir quais fossem sem no mínimo um bom punhado de especulações.

Entre os séculos X e XII, os cavaleiros cristãos foram aos poucos retomando a Península Ibérica aos muçulmanos: as regiões portuguesas retornavam gradativamente às mãos dos cristãos e o vinho, o sangue de Cristo, passa a ser uma bebida fundamental nos feudos e mosteiros, igrejas e palácios, numa sociedade fundamentada e justificada pela missa. Nesse cenário surge o Moscatel de Setúbal.

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No século XIV, firmado o tratado de Windsor com a Inglaterra, o vinho de Portugal alcança fama internacional: o rei Ricardo II é um dos principais clientes do reino de Portugal no mercado de vinhos, após as relações terem sido fortalecidas através do casamento dinástico de D. João I com a princesa inglesa D. Filipa de Lancaster, em 1387. Esse mesmo rei, em 1423, transformou o castelo de Palmela num mosteiro da Ordem de Santiago. Hoje o mosteiro é uma imponente pousada no alto de uma colina da Serra da Arrábida, com mais de 1000 anos de História somente silenciados pelo testemunho das muralhas desse castelo, um dos monumentos da DOC Palmela.

RicardoIIOKDe Ricardo II no século XV à corte assombrosa da Versailles de Luís XIV, o rei Sol, o Moscatel de Setúbal, um dos preferidos de Luís, alcança uma fama sem precedentes e, através do império português pelo mundo, seu consumo espalhou-se. No Brasil, o vinho já era consumido como um par perfeito para sobremesas, juntamente com o Porto, como denotam alguns cardápios da corte de D. Pedro II, imperador do Brasil.

Os vinhos que saíam da Península de Setúbal com destino ao Brasil e que não eram totalmente vendidos aqui, voltavam novamente para Portugal: sua dupla passagem pela linha do Equador nessas longas viagens que duravam cerca de 6 meses naquelas naus eram benéficas ao vinho, pois o vinho passava todos esses meses na barrica, sacudindo, exposto a temperaturas distintas que acabavam por melhorar significativamente a qualidade da bebida. Garrafas dessa época são vendidas ainda hoje por 2000 euros, e esses famosos vinhos são chamados de vinhos “Torna Viagem”.

Assim, o Moscatel de Setúbal foi conhecido durante muito tempo como vinho de “Torna Viagem”. Hoje ele não precisa mais obter as suas características nas penosas e perigosas viagens de travessia do Atlântico de antigamente, mas ainda assim, o último exemplar a ser vinificado como o costume de antigamente foi elaborado no ano 2000, quando foram comemorados os 500 anos de Descobrimento do Brasil, usando a colheita de 1984. O produtor José Maria da Fonseca proporcionou um vinho que fez a viagem ao Brasil de ida e volta a bordo da nau Escola de Sagres, que era o nome da escola de navegação responsável pelos descobrimentos, uma metáfora e tanto de homenagem ao país que o ajudou a melhorar.

O vinho doce elaborado com a cepa Muscat, envelhecido em tonel por anos a fio antes do engarrafamento, adquire uma coloração topásio, marróm-mogno em 20 anos de madeira, ou até mesmo ébano em 50 anos de madeira ou mais. Caramelo e casca de laranja são algumas de suas características aromáticas e sua doçura tende ao mel, um verdadeiro néctar, vinho esse infelizmente tão vilipendiado em nossas terras atualmente.

A DOC Setúbal

Tendo sido delimitada como “Denominação de Origem” somente entre os anos de 1907 e 1908, a DOC Setúbal possui uma precipitação anual de 550 a 750 mililitros, com 2200 horas de sol derramadas sobre terrenos arenosos e argilo-calcários, além da brisa Atlântica.

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As terras situadas entre os rios Tejo e Sado, que se estendem até o Oceano Atlântico, são conhecidas extraoficialmente como Península de Setúbal. É de José Maria da Fonseca, um dos maiores produtores da região, o vinho que foi degustado especialmente para esse texto-crônica.

MoscatelDeAlexandriaOKA DOC Setúbal é empregada para designar o vinho doce e fortificado feito com a cepa local (Moscatel de Setúbal), cuja vinificação passa pelas seguintes etapas:

1 – Após a colheita, as uvas são imediatamente transportadas para a vinificação;

2 – Os cachos são então desengaçados e esmagados pelo produtor;

3 – O suco resultante do processo anterior (mosto) passa a fermentar juntamente com as partes sólidas;

4 – É feita a análise do grau alcóolico das uvas;

5 – Dependendo da análise anterior, é feita a adição de um aguardente, ou álcool vínico, compreendendo entre 52% e 86%, para que o mosto interrompa a fermentação;

6 – Feito o processo acima, o vinho passa pela maceração em cerca de 6 meses em cubas, onde é feita uma espécie de filtragem;

7 – As películas em contato com o vinho durante o inverno são prensadas;

8 – O vinho estagia no mínimo 2 anos em cubas de inox ou pipas de carvalho, antes de ser engarrafado: a evaporação que se dá nesse estágio é apelidada de “a parte do anjos”.

Dois são os tipos de uvas usadas na vinificação do Moscatel de Setúbal: a casta branca Moscatel de Alexandria ou Muscat, introduzida há milhares de anos na Península, bem como a Moscatel Roxo, uma uva autóctone da Península de Setúbal, rósea em vez de branca, e que produz vinhos mais complexos e raros.

– Dá para dizer que esse vinho é caro, depois de todo esse trabalho, depois de toda essa odisséia histórica?

Os tratados com a Inglaterra

Além do Brasil e da França, o maior consumidor dos vinhos de Portugal foi e talvez ainda seja a Inglaterra. Se o Tratado de Windsor de 1386 foi favorável tanto para Portugal quanto para a Inglaterra, pois consistia num canal direto de consumo dos vinhos de Portugal pela Inglaterra, sem desfavorecer ninguém, o mesmo não se pode dizer do Tratado de Methuen, em 1703, que acabou por favorecer somente à Inglaterra, quando Portugal, meio sem saída na turbulenta política européia de 1703, viu-se “forçado” a assinar esse tratado, através do qual a Inglaterra passava a consumir os vinhos de Portugal em troca de que Portugal consumisse da Inglaterra produtos industrializados a serem pagos pelo ouro do Brasil.

CasamentoOK

Entretanto, se foi ruim para o país, tal tratado foi ótimo para os vinhos: Como a Inglaterra via-se obrigada a comprar e comercializar praticamente todo o vinho produzido em Portugal, a bebida, por sorte, acaba por ser moldada ao gosto inglês, bastante acertivo. Foi o paladar inglês, assim, o agente decisivo para a evolução dos vinhos que temos hoje, tanto em Portugal como no resto do mundo. Esse é um legado inquestionável da Inglaterra para o mundo do vinho.

Desde 1386 até os dias de hoje, são os ingleses os principais agentes de comércio dos vinhos do Porto, bem como os de Setúbal.

O Moscatel de Setúbal é hoje largamente injustiçado pela memória dos brasileiros, pouco consumido aqui, e não necessariamente menor que os vinhos do Porto, ou que os Sauternes franceses, ou mesmo os Tokaji húngaros que chegam ao Brasil para competirem nas harmonizações com queijos azuis e sobremesas.

José Maria da Fonseca

JMF_ComumOKO fundador da empresa que leva o mesmo nome nasce em Vilar Seco, concelho de Nelas, distrito de Viseu, a 31 de Maio de 1804. Aos 30 anos de idade, tendo se bacharelado em Matemática pela Universidade de Coimbra, funda a empresa que se consolidará nos dias de hoje na mais antiga exportadora do vinho Moscatel de Setúbal em atividade, sendo também a maior produtora, com estoques desse vinho que remontam a 1884, ano em que falece o fundador.

Durante todo o império brasileiro, o Moscatel de Setúbal esteve presente nos banquetes e, nos anos 20, o Brasil tornar-se-á o seu maior mercado consumidor, tendo a empresa estabelecido uma delegação no Rio de Janeiro que contava com a importação de 1 milhão de garrafas por ano. O ano de 1929, no entanto, traz um cenário sombrio para o mundo, e, devido à crise econômica, a empresa teve que se reinventar continuamente, sendo hoje uma das vinícolas mais modernas de Portugal, ainda nas mãos dos descendentes do fundador, que administram 650 hectares de vinhedos.

O exemplar degustado, o Moscatel de Setúbal José Maria da Fonseca 2006 é um exemplar propositalmente simples, cujo preço está em torno de R$70,00. Como se sabe, não é um vinho para se embriagar, mas para se deleitar aos poucos, numa taça pequena, acompanhando um pudim de leite com calda de caramelo, um pastel de nata, ou mesmo um pastel de Santa Clara, ou a sobremesa que melhor lhe aprouver, ou, ainda, os queijos, em especial os Chabichou ou Roquefort, ou Gorgonzola, ou qualquer outro queijo azul.

TopazioOKElaborado com as uvas Moscatel de Alexandria somente, apesar de serem castas brancas, o vinho é castanho: note-se a coloração topázio. Ao primeiro contato, imediatamente nossa memória gustativa relembra um Porto Tawny, mas não é! Notas evolutivas de caramelo, cedro, côco, avelãs, flor de laranjeira vão anunciando sua complexidade, numa ciranda de aromas que desfilam em roda ao encontro do sabor de casca de laranja, a inconfundível casca de laranja em compotas de doces da vovó…

Alguém pode estar se perguntando “tudo isso por um vinho tão simples, sendo que há tantos mais caros e raros, inclusive de vinhas moscatel roxo?” Eu sou da seguinte opinião: se as características básicas de um vinho não puderem ser encontradas num exemplar simples, não gaste dinheiro com os caros, parta para a cerveja ou para o suco de cajú. Ademais, a história encerrada nessa bebida é muito maior que um casamento dinástico entre Inglaterra e Portugal, pois é a história de muito trabalho na terra de gente que lutou por um país desde a sua essência, há mais de 900 anos.

Viva o Moscatel de Setubal!!!

BIBLIOGRAFIA

Adams, Geoff… [et all]. Guia Ilustrado Zahar – Vinhos do Mundo Todo. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Ed.

Lellis, Francisco; Boccato, André. Os Banquetes do Imperador. São Paulo, SP. Editora Senac São Paulo, 2013

Sites Consultados:

http://moscateldesetubal.pt/

http://www.jmf.pt

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PAÍS: Portugal
REGIÃO: DOC Setúbal (Denominação de Origem Controlada), região do Azeitão.
CEPA(S): Moscatel de Alexandria (100%).
SAFRA: 2006.
ENVELHECIMENTO: Descansa 2 anos em barricas de carvalho de segundo uso.
POTENCIAL DE GUARDA: Pelo menos 10 anos.
SERVIÇO: 10 graus.
HARMONIZAÇÃO: Doces portugueses à base de ovos e queijos azuis ou Chabichou.
CLASSIFICAÇÃO:
DEMAIS CLASSIFICAÇÕES: Informação não encontrada. Porém, esse vinho é produzido desde 1907.

Sobre Luciano Duarte

Luciano Duarte

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