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A uva País: A mais antiga da América?

A uva País: A mais antiga da América?

O vinho é algo lúdico, enigmático, como o Tempo. Ainda mais enigmático quando a sua história está vinculada à história do Homem, escrita pelas suas excêntricas necessidades… Para quê o Homem precisava atravessar o Atlântico e fundar impérios do outro lado do Mundo? Ganância, Fé, Espírito de Aventura, Fuga, enfim, de cada uma dessas necessidades, surge as várias facetas da História, algumas terríveis, outras nem tanto.

O que torna o mundo do vinho fascinante é quando conseguimos vinculá-lo a esses momentos: quanto mais seculares forem esses momentos, mais enigmáticos e atrativos se tornam, ao menos para mim. Tanto falam do vinho do Novo Mundo… Mas será que o vinho do Novo Mundo é tão novo assim?

Recentemente eu soube que não. Na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, há a narrativa sobre a reação dos nativos às coisas que lhes eram apresentadas quando os mesmos subiram à nau ancorada na costa brasileira no ano de 1500. Entre carneiros, galinhas, peixes, pães, confeitos e mel, ao chegar a vez do vinho, ao ser oferecido ao nativo, a reação do mesmo não foi das melhores:

“…Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais…

“Arcaico: …trouveranlhes vinhos per hua taça, poseranlhe asy a boca tã malaues e nõ gostarã dele nada nem o quiseram mais…

Sabemos que a conquista da América não dependia do gosto dos nativos e que, embora Portugal tivesse postergado a sua colonização no Brasil, os espanhóis a trataram de executar: já em 1533 o império Inca estava totalmente nas mãos da Espanha e, consequentemente, da Igreja Católica.

Jesuita_Final É nesse contexto que provavelmente surgem as técnicas de vinificação no Novo Mundo, encabeçadas pelos membros da Companhia de Jesus, então responsáveis pela catequese dos nativos; a catequese não consistia só em lhes trazer uma nova Fé, mas em desconstruir a cultura dos povos autóctones em prol da cultura Cristã. Se até então desconheciam o vinho – o “Sangue de Cristo” – seriam as missas os eventos que o divulgariam na América, as missas dos jesuítas. Se havia um linha imaginária dividindo o mundo em dois na esfera política, não havia na irmandade jesuítica: José de Anchieta era do Tenerife, nas Ilhas Canárias, de onde supoem ter vindo a uva País, e, no entanto, seria no Brasil que esse jesuíta construiria o seu nome, mas com as técnicas sem fronteiras de sua irmandade.

Nas Ilhas Canárias, a uva País leva o nome de Listán Negro, mas é de difícil vinificação. Na América, foi trazida pelos jesuítas no século XVI, e desde então foi a uva chilena mais proeminente, antes ainda da importância da Carmenère. Os vinhedos do Vale de Maule são seculares e a uva País era usada para a elaboração de vinho de mesa. No entanto, recentemente descobriram o seu potencial para vinhos finos, entre eles espumantes e varietais leves e frutados, como o que eu tomei pela primeira vez. Uma cepa que antes caíra no esquecimento, juntamente com outras, como a Carignan e a Moscatel de Alexandria, começaram a dar a volta por cima no Chile nos últimos anos. A uva País foi responsável pelo considerado melhor espumante do Chile em 2011, o Santa Digna Rosé, e deixou-me bastante intrigado com a qualidade de seu varietal tranquilo.

Vales_FinalAinda pesquisando sobre a sua origem, encontrei uma outra nota no “Blog do Jeriel”, com a seguinte versão da origem da uva:

“A uva provém de Castilla-La Mancha, na Espanha, onde é chamada de Listán Prieto, e foi levada para o México em 1540 por padres franciscanos espanhóis, que fundaram várias missões, explicando outro sinônimo para esta variedade de uva – ela é chamado Mission na América do Norte (Robinson, Harding, Vouillamoz, 2013, das uvas para vinho) Listán Prieto foi então introduzida no Chile na década de 1550 e em 1850 ela foi renomeada País.”

O produtor de quem eu tomei o varietal da uva País é um sujeito chamado Manuel Gutierrez, enólogo da vinícola Cacique Maravilla, o sétimo da linhagem da família Gutierrez, que se estabeleceu naquelas terras em 1760, desde então, produz vinhos respeitando as técnicas ancestrais do patriarca da família há 250 anos, vinhos naturais e biodinâmicos, com leveduras naturais.

Para visitar o site do produtor, acesso o link aqui:  Cacique Maravilla

Segundo Manuel Gutierrez, o nome Cacique Maravilla foi o primeiro Gutiérrez que veio das Ilhas Canárias em busca de ouro. Em 1760, Francisco Gutiérrez se estabeleceu em Yumbel (Região Bío-Bío) e encontrou grande simpatia dos habitantes locais e como forma de honrá-lo, o apelidaram de Cacique Maravilla! (Informação tirada do Blog “Vinho Sem Fronteiras”).

Para ver na íntegra a entrevista de Manuel Gutierrez no Blog Vinho sem fronteiras, acesse o atalho aqui:  Manuel Gutierrez

 Bem, vamos ao Pipeño, chamado assim por envelhecer em pipas de madeira: O que eu tive acesso tinha uma colocaração muito singular, talvez a mais bonita que já vi, até mesmo por parecer mais fantasiosa que real, uns tons de desenho animado até. Tratava-se de um rubi raro, rosado, cuja limpidez confundia o olhar, chegando a parecer um “doce de sagú”.

O corpo do vinhvinho país-finalo era leve, com taninos bastante macios, de grãos torrados e framboesas. Um vinho extremamente controverso, raro, que fazia lembrar um exemplar da cepa Poulsard da região francesa do Jura…

Fui além, queria saber mais, e descobri que os enólogos e produtores da bebida não são os únicos que estavam de olho nessa cepa. Um grupo de pesquisadores do Departamento de Engenharia Química da Universidade de Concepción, no Chile, tem acompanhado de perto o potencial terapêutico da uva País no combate à hipertensão arterial. Para essa equipe, o alto teor de flavonóides fazem dessa uva uma forte candidata a agir a favor dos doentes hipertensos.

Para conhecer o trabalho dos pesquisadores, acesse link:  Proyecto Conicyt

Há muitas estórias, pelo que se pode perceber, relacionadas a essa cepa. Há muita especulação sobre a cepa em sí, e até mesmo sobre o vinho que tomavam na época da conquista da América…

“Será que nos deparamos com a uva que produzia o vinho tomado por ninguém menos que José de Anchieta?”

Ninguém pode afirmar que não!

O vinho traz em suas inúmeras facetas o estímulo à imaginação: sob a armadura da taça, a alma de um mago na arte do sonho… Imaginar ainda é preciso!

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Luciano Duarte

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