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O Vinho e a Santa Ceia

O Vinho e a Santa Ceia


Quando Jesus conduziu a Santa Ceia, distribuiu aos seus companheiros o pão e o vinho, simbolizando o corpo e o sangue de uma divindade que iria mudar para sempre a História do Ocidente, até então sob o controle de Roma.

Toda a vez que eu penso no pão, lembro-me do trigo: o grão, o corpo da Terra. E, seu complemento, o vinho, as uvas, o sangue da Terra.

Simbologias a parte, o que menos se bebia nos tempos de Jesus era a água, muitas vezes fonte de doenças. Bebia-se vinho, ou cerveja.

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E que vinho era esse?

Em uma das degustações em que fui, o enólogo que conduzia a palestra teria mencionado a cepa “Syrah”. Hipoteticamente, o vinho que Jesus teria servido aos apóstolos teria sido da uva Syrah, hipótese essa fundamentada em especulações sobre qual seria a cepa mais comum na Galiléia naquela época.

A uva Syrah imprime bastante personalidade aos vinhos: seus vinhos, em geral, são “temperados”, herbáceos, apresentam aromas de pimenta negra, chocolate, café, grãos, especiarias, frutas vermelhas, notas defumadas ou de fumaça, enfim, a Syrah é uma uva que dificilmente passa desapercebida nos cortes, ou seja, vinhos de mais de uma uva.

Classicamente, é a uva de base dos vinhos provenientes da região francesa do Rhône, de onde especula-se ela seja originária. De especulação em especulação, há quem diga que ela só está no Rhône porque foi trazida do Oriente Médio por um cavaleiro cruzado proveniente de Jerusalém, na Idade Média.

mg04De Jerusalém, a uva seria oriunda da Pérsia, de uma cidade chamada Shiraz, ou Xiraz, localizada no sudoeste do Irã: Essa uva teria pipocado na Galiléia devido à vocação mercantilista daquela região ou talvez devido às constantes investidas dos persas em anexar Jerusalém, também disputada e capturada sucessivas vezes por romanos, otomanos, bizantinos e europeus nos últimos 3000 anos de história, pelo menos.

Para polemizar ainda mais, a tal cidade Shiraz ou Xiraz teria sido fundada no século VII depois de Cristo: A especulação poderia então migrar a sua tese de que a uva teria sido proveniente da Síria, em vez do distante Irã. Note-se a semelhança do nome: Syrah da Síria! Que uva teria produzido a coloração rubi sangue não fosse a Syrah, também conhecida como Shiraz no Novo Mundo, sobretudo na Austrália, onde seria responsável pela fama dos vinhos da longínqua Oceania?


mg03Pelo que tudo indica, Jesus tinha um bom relacionamento com o vinho: Nas bodas de Caná, quando os anfitriões se viram numa sinuca de bico por não terem mais vinho a oferecer aos convidados, Jesus transformou a água em vinho. Dizem que não era possível notar a diferença de cor da água para o vinho e que, ao ser degustado, o anfitrião agradeceu imensamente a Jesus pela qualidade do bom vinho. Que vinho era esse? Chardonnay? Já notaram a semelhança entre o nome da cepa Chardonnay e a frase hebraica “Sha’ar Adonai”, cuja tradução é “o portão de Deus?”

Ah, as especulações… Tudo seria muito lúdico se em vez de hipóteses, fossem fatos… As hipóteses fazem Ciência, mas também criam ilusões. Israel até hoje não sabe qual é a sua espécie de uva vinífera autóctone, apesar da antiguidade da uva Syraz na França e sua lenda medieval, em Israel ela só chegaria no final dos anos 90 e a Chardonnay, uma década antes.

Seria bom sentir na taça um vinho bíblico, mas ninguém sabe o que de fato aconteceu e, se aconteceu…

Sabe-se que o vinho que se bebia na época talvez fosse misturado a especiarias, um vinho bruto, rústico, sem estágio em barricas de carvalho francês, talvez nem fosse límpido… Mas seria frutado? Ácido? Em ânforas de argila talvez descansasse a nobre bebida de Baco…

De prático, temos que Israel está pesquisando suas espécies de uvas autóctones. Como os muçulmanos deram fim nas uvas usadas para a vinificação, só restaram uvas de mesa. A Universidade de Ariel, em Samaria, conta com um pesquisador, o Dr. Shivi Drori, que juntamente com uma equipe de arqueólogos comandam um estudo baseado em três frentes: a primeira visa identificar se ainda há espécies autóctones em Israel, capazes de produzir vinho; a segunda frente, tem o objetivo de traçar um vínculo entre essas espécies autóctones e as variedades clássicas européias e, a terceira frente, se existe algum vínculo entre as uvas remanescentes e os resquícios de uvas identificadas pela Arqueologia, algumas com centenas de milhares de anos.

E o que teremos de resultado? O vinho do Santo Graal? Não, talvez um novo vinho, genuinamente israelense…

Contudo, o vinho abre os portais dos sonhos, talvez o portão de Deus, ou dos deuses…

Assim, para ser o Lohengrin, um cavaleiro do Santo Graal, que na ópera de Wagner é enviado pelo próprio cálice com a missão de proteger uma donzela das garras dos vilões na inóspita Idade Média, basta uma garrafa de Syrah e um punhado de imaginação.

Por que não?

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Luciano Duarte

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