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– Os Aromas do Vinho –

– Os Aromas do Vinho –

A minha obsessão pelo vinho se deu pelo conhecimento enigmático de seus aromas: eu os percebi uma vez, e outra vez, e outra vez, até resolver estudá-los a fundo. Percebi que eles existiam de fato, que tinham personalidade, que cada uva trazia a sua essência, mas que o tempo e o terroir, ou seja, a profundidade das terras por onde viajam as raízes dos vinhedos, podem trazer o DNA do vinho, inclusive em forma de aromas também.

Passei a estudar os aromas. Estudar e comprovar. A gente sai cheirando tudo o que vê pela frente, coisas que talvez nos dias de hoje, onde todo mundo mete a cara num aparelhinho de celular e fica hipnotizado pelas suas ondas, talvez sejam impossíveis de notar.

Você irá perceber os aromas do vinho se guardar o celular, abrir as janelas e deixar a brisa entrar, sentir o cheiro da chuva, da noite, do sereno, da grama que resta nessas cidades cimentadas, e mesmo nas frutas agrotóxicas que vendem no supermercado. Até na fumaça dos carros você pode encontrar aromas de vinho.

Largue o celular, saia para cheirar a vida passando na rua. Pare para se lembrar da infância: muitos aromas estão em nossas mentes, em nosso passado, em nosso dia-a-dia… E quando você se deparar com uma taça de vinho e ela lhe remeter a uma lembrança trazida pelo cheiro, você entenderá o que eu estou falando.

Hoje há muita literatura associando o Sauvignon Blanc ao maracujá, o Gewürztraminer à lichia, o Chardonnay ao pêssego e o Riesling aos aromas cítricos e minerais… Isso sem dúvida dá para constatar. Mas perceber esses aromas é um desafio, é uma brincadeira de adultos tão divertida que nos leva à reflexão: esses momentos com os amigos tem preço? Esses momentos em que os aromas do vinho lhe remetem a algum canto da vida de cada um de vocês, não são mágicos?

roda de aromas com legenda

Muitos riram de mim quando eu comecei a apontar os aromas de cada garrafa aberta em rodas de amigos. Com o tempo, percebiam também. Hoje se convencem de que há algo além na bebida do que a bebida propriamente dita.

Um dia comprei uma caixa de aromas: 54 (cinquenta e quatro) aromas documentados de vinho, em vidrinhos. A compra se deu em 2013. Ainda hoje, em 2015, os aromas estão intactos, não evaporaram. Uma forma legal de relaxar é abrir essa caixa e cheirar cada frasco, observar o item da natureza ao qual cada cheiro representa e tentar memorizar. A caixa serve também como uma contra-prova: as vezes um vinho traz uma máscara, uma personalidade enigmática, que não condiz com o tipo de uva da qual ele é composto. A caixa o revela… Ou não!

Caixa de Aromas Legenda

Quando não revela, é que nos damos conta de que há muitos mais aromas do que imaginamos. Então, a interpretação dar-se-á através dos verbos “PERCEBER” e “MEMORIZAR”. Aí, a obsessão pelos aromas deve sair da caixa e ir para a feira, para o jardim, para as ruas. A caixa deve ser um exercício do lar, os enigmas dependem de você e das suas andanças.

Uma vez uma amiga me disse que sentira um aroma de “gasolina” no Riesling que eu abrira para a degustação. Toda a gente riu, e eu também. Ela também riu. Aliás, quem bebe vinho sempre ri. Ela estava errada? – Claro que não! A percepção mineral ou química que ela teve de um vinho trouxe à sua memória uma palavra: gasolina. Se ela estivesse no século XVIII, esse aroma não teria sido documentado ainda, talvez fosse outro! Daí a necessidade de sair às ruas, vivenciar… No século XXI, aroma de gasolina se sente em qualquer metrópole.

taça com frutas corpo

Muitas vezes sou instado a desvendar aromas de vinhos em mesas de amigos. Funciona, com o tempo, conversa vai e conversa vem, e os aromas aparecem. É como um jogo de esconde-esconde. Mas a minha técnica é a seguinte: gosto de ficar sozinho, abrir o vinho, cumprimentá-lo, perceber sua evolução, mas tudo isso em silêncio. O silêncio é fundamental para compreender o vinho. Assim, o verbo “perceber” depende do “silenciar” para “desvendar” e “memorizar”.

Lembrem-se: Silenciar, perceber, desvendar e memorizar…

– Isso tudo para estudar sozinho, claro. Entre amigos, vinho demanda ruído mesmo.

Aliás, já pararam para pensar o que está embaixo de nós nas cidades e no Presente? Não? – É o Passado. Se escavarmos São Paulo vamos chegar aos vestígios de alguns anos atrás… As raízes das videiras, ao buscarem a profundidade dos solos, buscam o Passado. Na minha opinião, transmitem ao Presente o que encontram do Passado soterrado, transportam esses anos para as uvas…

Por isso o vinho tem em sua alma a História.

Ao enólogo cabe engarrafar a História e deixar que a Natureza mande para nós os seus aromas em forma de vinho. E os aromas do vinho são a alma dessa bebida que animam as festas dos amigos, selam compromissos românticos ou ao menos fazem com que nos sintamos vivos. Aos aromas, então!

Saúde e até a próxima!

Sobre Luciano Duarte

Luciano Duarte

10 comentários

  1. Muito interessante seu artigo sobre odores,bem verdade que nós deixamos levar pela procura deles em todos os locais que freqüentamos

  2. Adorei o post! Goato muito da aromatizacao de vinhos, mais ate do que o assunto de harmonizacao. Nao encontro mais estas caixinhas com os aromas e o curso da Daniella Romano. Voce sabe onde ainda encontrar?
    Obrigado

    • Luciano Duarte

      Oi, com a própria Daniella Romano. Se eu não me engano, ela não parou de produzí-las. A minha eu comprei dela.
      Entretanto, a loja “Delacroix” na Alameda Lorena 678 também vende, mas eu não sei se com tantos aromas como a da Daniella.
      Obrigado.

  3. Inspirador texto, muito informativo e interessante por também incluir as suas impressões e experiências de quando começou a se dedicar com mais afinco ao universo dos vinhos.
    Esse kit também me encheu os olhos, vou procurá-lo!

  4. Excelente post Luciano, eu tenho aprendido muito com minha caixa de aromas também; mas concordo contigo que o grande aprendizado está cheirando o “mundo”.

  5. Vc indica alguma loja que venda a caixa de aromas? Pode ser loja virtual

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