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– Os ingleses e o vinho –

– Os ingleses e o vinho –

Muita gente quando pensa na Inglaterra a associa ao chá: os emblemáticos ingleses com um Earl Grey na xícara, lendo jornais e preocupados com a hora. Quanto à pontualidade britânica não temos o que discutir, mas quanto ao chá, nem sempre foi assim. Mas essa é outra estória.

Na verdade, no mundo do vinho, a contribuição dos nossos amigos ingleses foi imensa e irrefutável, e a paixão por essa bebida vem de muitos e muitos séculos: a obsessão inglesa pelo vinho definiu o destino da bebida, estabelecendo o seu gosto moderno. Mas e agora? O que será do vinho na Inglaterra com essa estória de BREXIT?

Apesar da ancestralidade romana da bebida naquela ilha, os ingleses passam a protagonizar a obsessão pelo vinho no século XII. Tudo culpa de uma duquesa refinada que ocupou um protagonismo ímpar nas lendas e filmes de Hollywood: Leonor de Aquitânia (em francês, Éléonore d’Aquitaine – 1122 ? – 1204).

Leonor era uma moça muito rica. Como duquesa da Aquitânia, falava 8 idiomas, conhecia Matemática, Astronomia e Filosofia, cercou-se de homens sábios numa corte cheia de trovadores, e quando herdou o ducado, além de ser o maior domínio da França, era o lugar onde fica Bordeaux, a terra dos vinhos mais caros do mundo, e por assim dizer, a terra dos melhores vinhos do mundo.

Ser herdeira universal de um ducado tão rico aguçou a cobiça do rei da França, Luís VII, com quem ela “teve” que se casar. Casou e tornou-se rainha, mas deu um chute no rei: o poder de Leonor conseguiu a anulação de seu casamento mesmo tendo sido consumado e com filhos, uma atitude ousada para uma mulher da Idade Média no tempo das Cruzadas. Livre do casamento com o rei da França, Leonor deu em cima do rei da Inglaterra, Henrique II, e se casou com ele em 1152. Dizem que o sogro era contra, pois Leonor andara desfrutando o leito do sogro.

BordeauxEssa ligação dá início a um processo de disputas que durará séculos. Os filhos de Leonor – Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra, entre outros, se afeiçoaram ao domínio da mãe na França e a seus vinhos. Esse casamento colocaria Bordeaux sob o domínio da coroa inglesa por mais de 300 anos. O filho predileto de Leonor, Ricardo Coração de Leão, usou Bordeaux como sua base e se apossou de seu vinho, fomentando o comércio de vinhos de Bordeaux com a Inglaterra. Esse comércio influiu definitivamente no estilo do vinho primitivo de Bordeaux, evoluindo de um branco ralinho para uma bebida de coloração vermelho granada. Acontece que ao morrer, Leonor deixaria como herdeiros da Aquitânia os ingleses e os franceses, e essa prole mimada iria quebrar o pau entre si, culminando na Guerra dos 100 anos (1337-1453): A França reconquistaria Bordeaux somente em 1453 aos ingleses e o comércio de vinhos com a Inglaterra seria fortemente prejudicado. Quem pagaria o pato seria a Joana d’Arc, mas essa também é outra estória.

Leonor deixou muitos descendentes, de modo que ela é a ancestral comum de todas as casas reais européias, inclusive da nossa simpática majestade, a velhinha Elizabeth II.

Uma vez sem os vinhos de Bordeaux, os ingleses já andavam amigos dos portugueses desde o século XIV: em 1386 assinaram o Tratado de Windsor e casaram o D. João I com a D. Filipa de Lancaster. A partir daí, os vinhos portugueses tornam-se os protagonistas da Ilha. Ricardo II, rei da Inglaterra lá pelo século XV, adorava um moscatel de Setúbal e fortaleceu o comércio desse vinho entre os dois reinos.

No decorrer dos séculos, os ingleses “inventaram” o vinho do Porto tal como ele é hoje: os comerciantes ingleses misturavam conhaque ao vinho da região do Douro para evitar que ele se estragasse no trajeto entre o Porto e a Inglaterra. Avaliaram então que quanto mais forte e doce fosse o vinho, melhor seria o sabor. E assim passaram a “sabotar” esse vinho, que se tornaria uma grande bebida, uma das melhores e mais nobres do mundo.

Ao chegar na Inglaterra para se casar com o rei Carlos II em 1662, a princesa portuguesa D. Catarina de Bragança teria se escandalizado com o quanto a corte inglesa enchia a cara, e implementou a cerimônia do chá. Catarina foi uma infeliz, era católica demais para um povo afeito aos porres, mas foi ela quem assinou o Tratado de Methuen em 1703, garantindo à Inglaterra a compra total da produção de todo o vinho português, e em troca Portugal compraria da Inglaterra os tecidos ingleses. Aliás, o Porto é a cidade mais inglesada de Portugal.

Bolo MadeiraApesar do Marquês de Pombal ter tentado diminuir a influência da Inglaterra na produção do vinho do Porto, hoje todos sabemos que esse tratado foi um desastre para Portugal, mas muito importante para o caráter que o vinho apresenta hoje. Os ingleses gostavam tanto do vinho português que inventaram regras de harmonização e definições clássicas: para acompanhar o vinho Madeira Verdelho os ingleses inventaram até um bolo, o Bolo Madeira. A sopa, antigamente, era o par ideal do Madeira Sercial, regra compilada pela antiga etiqueta inglesa: Há quem diga que toda a regra de combinação da comida e do vinho foi compilada pelos ingleses ainda no século XVIII.

Na Revolução Francesa, muitos nobres fugiram da guilhotina para a Inglaterra, levando consigo o hábito de tomar o vinho francês agora “modernizado”, um bocado diferente do vinho feito à época em que Bordeaux pertencera à Inglaterra. A essa altura, os ingleses já eram grandes tomadores de champagne.

O tempo passou e veio o longo reinado da Rainha Vitória (1837-1901): foi nessa época que o vinho tomou a feição próxima do que se tem hoje, bem como todas as regras de harmonização. O gosto inglês, o principal cliente do vinho, determinava a vinificação: o mundo copiava a Inglaterra em tudo, e até no Brasil os grandes vinhos vieram figurar nos banquetes imperiais de influência inglesa.

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No século XX, passadas duas guerras, Sir Winston Churchill não ficava longe de seu champagne favorito, o Paul Roger. Hoje, quando você viaja de Londres para Paris de Eurostar, pode desfrutar de um champagne na St Pancras International Station, no  St Pancras Grand Champagne Bar

E o pessoal vem falar de Brexit? A Inglaterra é a Inglaterra, caros leitores: Sobreviveu por mais 900 anos sem a Comunidade Européia, espalhou-se pelo mundo levando as locomotivas e o Capitalismo, e, entre mortos e feridos, temos o vinho… O vinho que a Inglaterra ajudou a moldar, o grande legado daquele pequeno reino que aprendi a admirar.

Cheers!

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Luciano Duarte

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